segunda-feira, 15 de janeiro de 2018


Biomassa florestal e a cara energia elétrica do Acre
* Ecio Rodrigues
No Acre faz calor, mas não há luz suficiente durante todo o ano para produzir energia solar. Às vezes venta tanto que parece até tornado, mas não com a constância requerida para movimentar cata-ventos e gerar energia eólica.
Existe uma imensidão de rios e igarapés, distribuídos em diversas bacias hidrográficas pelo território estadual, mas nenhum apresenta diferença de cota suficiente a permitir a construção de usinas hidrelétricas.
Sem luz do sol, sem vento e sem quedas d’água, o Acre não pode empregar as principais forças da natureza na geração de energia elétrica limpa – ou sustentável, como preferem os ambientalistas.
Contudo, há que se incluir nessa lista de fontes renováveis de energia elétrica a biomassa que se origina da produção rural. Trata-se das sobras do beneficiamento de produtos como milho, arroz, cana-de-açúcar – e também da madeira.
No caso específico do Acre, onde não existe produção agrícola significativa, a madeira extrapola todas as estatísticas relativas à produção de biomassa.
Seja durante o manejo da floresta, quando as árvores derrubadas precisam ser desgalhadas; seja durante o beneficiamento primário em serraria para transformar a tora cilíndrica em peças esquadrejadas; seja ainda no aproveitamento do pó e da maravalha que resultam da serragem, no Acre, a madeira nativa é a única fonte renovável para geração de energia elétrica.
Cabe destacar, de outra banda, que no Acre se paga a conta de luz mais cara do país. Não à toa, a oferta de energia elétrica é apontada como empecilho insuperável à instalação de indústrias e ampliação da tímida dinâmica econômica estadual.
Além de ser um pesado item de custo para as empresas, a oferta de energia elétrica se caracteriza por grande instabilidade, submetendo os empreendimentos a um risco difícil de mensurar, todavia, suficiente para desanimar investidores.
Num contexto de monopólio estatal – que vigora há mais de 50 anos e abrange a geração e a distribuição de energia elétrica –, seria difícil vislumbrar uma luz (com o perdão do trocadilho) no fim do túnel.
A redução do preço da energia depende da introdução de uma nova fonte e, por meio dela, de uma cadeia produtiva diferenciada.
A solução está na biomassa florestal. Estudos comprovam a viabilidade técnica e econômica de usinas de geração de energia elétrica em caldeiras, onde a água pode ser fervida com o calor que sai da madeira.
Em aglomerados urbanos de pequeno porte, como os municípios de Santa Rosa do Purus, Jordão, Manuel Urbano e Assis Brasil, a biomassa oriunda da exploração das árvores pelo setor madeireiro poderá atender, com facilidade, à demanda das residências e empresas ali situadas.
Melhor ainda, os restos de madeira que atualmente são queimados a céu aberto como lixo, ao serem empregados na geração elétrica, podem reduzir o preço da energia e possibilitar expressiva oferta de empregos.
Ou seja, por um lado, a biomassa florestal atende a princípios de sustentabilidade, eis que a floresta manejada se regenera depois de certo tempo; por outro, atende a princípios de viabilidade econômica.
Organizar a cadeia produtiva para a geração de energia com a queima de madeira é um caminho curto para potencializar a vocação florestal do Acre. Simples assim!



*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017


Em 2017, desmatamento menor aproxima Amazônia da sustentabilidade

* Ecio Rodrigues
Embora alguns ambientalistas (que odeiam o governo atual porque eram amigos do anterior) prefiram acreditar que houve retrocesso na execução da política de meio ambiente, os dados, ou os fatos, para usar um termo mais atual, contrariam essa pseudoverdade. Senão, vejamos.
Entre agosto de 2016 e julho de 2017, segundo as medições divulgadas pelo Inpe, que desde 1988 monitora por satélite e sob inquestionável precisão o desmatamento na Amazônia, houve corte raso da floresta em uma área de 6.624 km2.
Ainda se trata, evidentemente, de uma extensão de terra absurda – inadmissível –, principalmente depois da assinatura do Acordo de Paris; porém, existem algumas razões para comemorações, e duas delas vale destacar.
Explica-se. Após os aumentos consecutivos na taxa de desmatamento em 2015 e 2016, temia-se que a persistência de alta em 2017 comprometesse os mecanismos de controle, levando a um novo ciclo de ampliação, da mesma forma como aconteceu em 1995 e 2004.
Na verdade, a análise dessas duas elevações recordes (em 1995 e 2004) fornecia estatística suficiente para justificar o temor de um terceiro recorde.
Explica-se mais uma vez. Tendo passado por uma crise econômica sem precedentes, ostentando 2 anos sucessivos de PIB negativo de quase 4%, a economia nacional ressurgiu em 2017, depois da aprovação de legislação drástica, apesar de necessária.
Medidas de ajuste fiscal foram adotadas e direcionadas, sobretudo, para estancar os gastos do governo federal, o que significou o contingenciamento do orçamento de ministérios e a consequente redução de atividades rotineiras, entre as quais a fiscalização ambiental não poderia escapar.
Com a economia em processo de aquecimento, o que motiva os agentes econômicos a investir (ou desmatar, no caso da Amazônia), e com a redução do orçamento estatal destinado a manter o caríssimo aparato de fiscalização, o resultado, mais que esperado, era a ampliação do desmatamento na Amazônia.
Todavia, essa expectativa não se concretizou: ainda que gigantesca, a superfície desmatada em 2017 representa uma redução de 16%, quando comparada à área desmatada entre agosto de 2015 e julho de 2016, equivalente a 7.893 km2 de florestas.
Sim, o desmatamento diminuiu, mas o que realmente é motivo de comemoração é a reversão da tendência de alta, que vinha se delineando desde 2015 e parecia inexorável.
A segunda razão para comemoração pode explicar esse quadro favorável e inesperado, que associou o aquecimento econômico à redução do desmatamento.
Ocorre que, ao assinar o Acordo de Paris em 2015, os brasileiros se comprometeram a zerar o desmatamento ilegal até 2030 – contudo, o desmatamento legal, aquele que é amparado pelo Código Florestal, é a verdadeira raiz do problema.
Por outro lado, na Amazônia, a redução do desmatamento legalizado depende menos de fiscalização e mais de uma política pública voltada para coibir o avanço do modelo de ocupação produtiva baseado na criação de boi.
Seguindo nesse raciocínio, é possível que o processo de regularização fundiária, em fase de consolidação na região, longe de oficializar uma suposta grilagem de terras (como acusam alguns desinformados), esteja fornecendo segurança jurídica aos investimentos na exploração econômica dos produtos da biodiversidade florestal – e isso se traduz na diminuição do desmatamento legalizado.
Resumindo, entender a dinâmica do desmatamento legal é o caminho mais curto e inteligente para alcançar a sustentabilidade na Amazônia.     

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.



terça-feira, 19 de dezembro de 2017


E se a Tentamen cair?
* Ecio Rodrigues
Para os não iniciados nas coisas do Acre, esclareça-se que o prédio que abriga a Sociedade Recreativa Tentamen fica no 2º Distrito e completa, com o Calçadão da Gameleira e o Cine Teatro Recreio, um conjunto de 3 reconhecidos símbolos culturais que remetem aos tempos áureos da produção de borracha.
Desde sua criação em 1924, a Tentamen se tornou ponto de encontro de seringalistas, comerciantes e servidores públicos que constituíam a nata de uma sociedade enriquecida pela extração de produtos florestais (em especial a borracha), contudo, ainda em formação.
Nesses quase 100 anos, a Tentamen alternou períodos de intensa atividade, como na primeira metade da década de 2000, com outros de completo abandono, como agora.
Existem pelo menos duas hipóteses relacionadas às consequências do desmoronamento (inevitável, se tudo continuar como tem sido nos últimos anos) do prédio da Tentamen.
Uma dessas hipóteses, na verdade, não é consequência, mas ausência de consequências – do mesmo jeito que ocorreu no caso dos prédios onde funcionavam as antigas sedes da Polícia Federal e da Associação de Teatro.
O último desabou faz tempo, sem que ninguém se desse conta, o primeiro desabará em breve, sem que ninguém dê a mínima.
A outra hipótese diz respeito à simbologia cultural de uma sociedade, ou seja, à representação do legado dessa sociedade no imaginário da população.
Acontece que, depois do último período de abandono, ainda no final da década de 1990, a reativação do prédio da Tentamen compôs o pacote de promessas eleitorais de uma força política recém-chegada ao poder.
Com discurso pautado no resgate do acreanismo e do regionalismo, por meio da promoção de uma economia que respeitava os ideais de sustentabilidade preconizados mundo afora, essa nova política se comprometia com um desafio ousado e muito complexo: harmonizar crescimento econômico e conservação da floresta. 
Palco de grandes festas e bailes carnavalescos, a Tentamen voltou a ser ponto de encontro de servidores públicos, empresários e de uma casta política deslumbrada com um projeto de desenvolvimento nunca antes experimentado na Amazônia.
Ancorado na exploração da biodiversidade florestal, o novo modelo econômico promoveria as reservas extrativistas e o manejo florestal comunitário, dois legados do Acre para a Amazônia, à condição de referência principal.
Esperava-se que, no médio prazo, a renda e o emprego advindos da produção florestal superassem os ganhos oriundos da criação de gado, de maneira a afastar os riscos trazidos pelo desmatamento inerente ao processo produtivo da pecuária.
Todos pareciam saber que alterações profundas na economia estadual, em direção à ampliação da oferta de produtos como sementes florestais, fauna silvestre e madeira (para ficar naqueles de maior valor comercial), exigiriam demasiado esforço técnico e determinação política.
O prédio da Tentamen, todo em madeira e construído num estilo arquitetônico típico da época áurea da borracha, não se destinava a funcionar apenas como salão de festas e ponto turístico, era mais que isso, era um símbolo desses novos tempos, que fortalecia o propósito de retomar o modelo econômico e o modo de vida dos antigos seringais.
Ou não. Pode ser que tenha sido só deslumbramento com um momento da história do Acre. Vai ver a Tentamen é só um prédio público mesmo, pode cair.



*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017


Vocação florestal do Acre ficou nos palanques
* Ecio Rodrigues
Tema recorrente nos idos da década de 1990, a vocação florestal do Acre, entendida como a possibilidade de lastrear o crescimento do PIB estadual na exploração da floresta, parece ter sido esquecida nas prateleiras dos pesquisadores e nos palanques dos políticos.
Repetida à exaustão naquela época, a tese de que não havia conciliação possível se mostrou correta. Quer dizer, ou a dinâmica econômica se assentaria sobre a pecuária, ou sobre a biodiversidade presente no ecossistema florestal.
O que prevaleceu afinal foi mesmo a criação de gado, sendo que o aproveitamento do ecossistema ficou restrito aos discursos e às pesquisas.
Muitos haverão de argumentar que as águas corriam a favor da criação de boi, e que a correnteza contra a produção florestal era muito forte. Todavia, isso não é bem verdade. A sociedade, por sinal, hipotecou seu apoio, ao votar – não uma, mas várias e repetidas vezes – no grupo político que defendia a navegação rio acima.
Talvez tenha faltado disposição e, o mais grave, competência, para encarar o balseiro de impasses que desciam o rio a favor da pecuária. Afinal, eram muitos.
A superação de um desses impasses se mostrava impreterível – mas, claro!, foi deixada pelo caminho. Tratava-se de evitar a exaustão das terras (cobertas por florestas) entregues à exploração comunitária.
Embora uma quantidade significativa de Reservas Extrativistas tivesse sido criada durante a década de 1990, faltava levar aos assentamentos gerenciados pelo Incra, nos quais a pecuária dominava, a alternativa da produção florestal.
A proposta de uma nova categoria de assentamento rural, como opção para reforma agrária, denominada “Projeto de Assentamento Florestal” (PAF) e especialmente pensada para a Amazônia, poderia afastar o Incra e seus projetos de assentamentos da condição de “vilões “ do desmatamento amazônico.
          Diante do propósito de consolidar a produção rural por meio das florestas plantadas e do manejo das nativas ainda existentes nas áreas destinadas à reforma agrária, a ideia era que os produtores do PAF realizassem uma transição produtiva, abandonando a pecuária mais rápido até que os produtores das Reservas Extrativistas.
          A institucionalização do PAF possibilitou que se radicalizasse na proposta de impor os recursos florestais como única via de produção comercial para os assentados. Significa dizer que os produtores só poderiam integrar o PAF se demonstrassem experiência com a cadeia produtiva florestal, em algum de seus elos.
Para a geração de renda, contava-se com a tecnologia do manejo florestal comunitário para produção de madeira. Desse modo, o Incra entregaria o assentamento aos produtores após a publicação da licença ambiental.
Esperava-se que, de posse do plano de manejo e prevendo-se 10 hectares por família, o produtor tivesse condição de obter uma capitalização inicial, mediante a exploração da madeira, que viabilizasse a consolidação do assentamento florestal nos anos seguintes.
Em termos gerais, o propósito era incluir o PAF no Programa Nacional de Reforma Agrária como modelo de assentamento adequado à realidade florestal da Amazônia, de forma que caísse por terra a polêmica acerca da redução da área de Reserva Legal. Essa redução, contudo acabou ocorrendo no Código Florestal de 2012.
A viabilização do assentamento florestal teria demonstrado que a Reserva Legal de 80% das propriedades privadas (onde a exploração por meio do manejo florestal é permitida e a criação de boi, não) está longe de ser improdutiva, como ainda afirmam alguns políticos.
Mas, nada disso vingou. De lá prá cá, a criação de boi se consolidou e o desmatamento chegou na barreira dos 20% do território estadual. Quanto à vocação florestal do Acre, voltará aos palanques em 2018. Simples assim.


*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.


domingo, 19 de novembro de 2017


Madeira é tema da XI Semana Florestal do Acre
* Ecio Rodrigues
Há dezessete anos que os engenheiros florestais formados na Universidade Federal do Acre, Ufac, contribuem, em seu cotidiano profissional, para estabelecer no estado o que se pode chamar de um Cluster Florestal.
Trata-se de organizar a exploração da biodiversidade presente na floresta, com o propósito de elevar sua importância na economia do Acre – até o ponto de desestimular o investimento no desmatamento.
Afinal, a informação científica disponível não deixa dúvida quanto ao potencial da diversidade biológica para propiciar o emprego e a renda que a sociedade demanda: a vocação florestal do Acre, apesar de repudiada pelos políticos, é reconhecida pela ciência.
É nesse contexto que o curso de Engenharia Florestal da Ufac realiza anualmente a “Semana Florestal”, evento dedicado ao fortalecimento da crença de que a estruturação de um Cluster Florestal constitui a principal, talvez única, alternativa para o desenvolvimento do Acre.
Em 2007 teve lugar a 1ª edição da Semana Florestal. Sob o slogan “Biodiversidade: ver a floresta que existe além das árvores”, foram discutidos os impactos da exploração florestal. No ano seguinte, enfrentou-se o problema do gargalo tecnológico (“Desenvolvimento Tecnológico e Alternativas Florestais”) e, em 2009, foi a vez de examinar a tecnologia adequada ao aproveitamento do ecossistema (“Manejo Florestal de Uso Múltiplo”).
A 4ª edição da Semana Florestal (“Reservas Extrativistas: fonte de renda inexplorada”), que aconteceu em 2010, chamou a atenção para o manejo florestal comunitário como principal legado do Acre na política florestal amazônica.
Depois, 5ª, 6ª e 7ª edições abordaram, sucessivamente, o papel das empresas (“Manejo Florestal Empresarial: um mercado promissor e sustentável”); a importância da madeira para a geração de energia (“Biomassa Florestal e Energia Elétrica”); e a disponibilidade de terras destinadas à conservação da floresta (“Unidades de Conservação: passaporte para o futuro”).
A partir de 2014, foram realizadas 3 edições consecutivas consagradas às mudanças no clima. A “Trilogia das Alterações Climáticas” debateu a importância das florestas para o equilíbrio do clima (“Floresta sob um novo Clima”); a relação entre florestas e água (“Floresta e Água: um equilíbrio mútuo”); e, finalmente, o contemporâneo tema do sequestro de carbono (“Quantificando um novo tempo”).
Agora, em 2017, a XI Semana Florestal vai se debruçar sobre o mais importante produto florestal na atualidade: a madeira.
Existe um número limitado de matérias-primas que são utilizadas em praticamente todos os produtos consumidos pela humanidade; e desde a revolução trazida pelo petróleo, esse conjunto de matérias-primas ficou ainda mais concentrado.
É provável que ninguém, em nenhuma parte do mundo, passe um dia sequer sem fazer uso ou manter contato com artefatos colocados à disposição do homem graças ao petróleo e a metais como ferro, alumínio e aço.
 Nesse seleto grupo de matérias-primas que estão presentes em quase tudo o que consumimos também se inclui a madeira. Com uma particularidade, porém.
Ocorre que a produção e o emprego da madeira contribuem para a sustentabilidade e, por conseguinte, para o futuro do planeta.
Você não se pode falar o mesmo do petróleo, aço, ferro...
De 11 a 15 de dezembro de 2017, na Ufac. Todos lá! 

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.




Madeira é tema da XI Semana Florestal do Acre
* Ecio Rodrigues
Há dezessete anos que os engenheiros florestais formados na Universidade Federal do Acre, Ufac, contribuem, em seu cotidiano profissional, para estabelecer no estado o que se pode chamar de um Cluster Florestal.
Trata-se de organizar a exploração da biodiversidade presente na floresta, com o propósito de elevar sua importância na economia do Acre – até o ponto de desestimular o investimento no desmatamento.
Afinal, a informação científica disponível não deixa dúvida quanto ao potencial da diversidade biológica para propiciar o emprego e a renda que a sociedade demanda: a vocação florestal do Acre, apesar de repudiada pelos políticos, é reconhecida pela ciência.
É nesse contexto que o curso de Engenharia Florestal da Ufac realiza anualmente a “Semana Florestal”, evento dedicado ao fortalecimento da crença de que a estruturação de um Cluster Florestal constitui a principal, talvez única, alternativa para o desenvolvimento do Acre.
Em 2007 teve lugar a 1ª edição da Semana Florestal. Sob o slogan “Biodiversidade: ver a floresta que existe além das árvores”, foram discutidos os impactos da exploração florestal. No ano seguinte, enfrentou-se o problema do gargalo tecnológico (“Desenvolvimento Tecnológico e Alternativas Florestais”) e, em 2009, foi a vez de examinar a tecnologia adequada ao aproveitamento do ecossistema (“Manejo Florestal de Uso Múltiplo”).
A 4ª edição da Semana Florestal (“Reservas Extrativistas: fonte de renda inexplorada”), que aconteceu em 2010, chamou a atenção para o manejo florestal comunitário como principal legado do Acre na política florestal amazônica.
Depois, 5ª, 6ª e 7ª edições abordaram, sucessivamente, o papel das empresas (“Manejo Florestal Empresarial: um mercado promissor e sustentável”); a importância da madeira para a geração de energia (“Biomassa Florestal e Energia Elétrica”); e a disponibilidade de terras destinadas à conservação da floresta (“Unidades de Conservação: passaporte para o futuro”).
A partir de 2014, foram realizadas 3 edições consecutivas consagradas às mudanças no clima. A “Trilogia das Alterações Climáticas” debateu a importância das florestas para o equilíbrio do clima (“Floresta sob um novo Clima”); a relação entre florestas e água (“Floresta e Água: um equilíbrio mútuo”); e, finalmente, o contemporâneo tema do sequestro de carbono (“Quantificando um novo tempo”).
Agora, em 2017, a XI Semana Florestal vai se debruçar sobre o mais importante produto florestal na atualidade: a madeira.
Existe um número limitado de matérias-primas que são utilizadas em praticamente todos os produtos consumidos pela humanidade; e desde a revolução trazida pelo petróleo, esse conjunto de matérias-primas ficou ainda mais concentrado.
É provável que ninguém, em nenhuma parte do mundo, passe um dia sequer sem fazer uso ou manter contato com artefatos colocados à disposição do homem graças ao petróleo e a metais como ferro, alumínio e aço.
 Nesse seleto grupo de matérias-primas que estão presentes em quase tudo o que consumimos também se inclui a madeira. Com uma particularidade, porém.
Ocorre que a produção e o emprego da madeira contribuem para a sustentabilidade e, por conseguinte, para o futuro do planeta.
Você não se pode falar o mesmo do petróleo, aço, ferro...
De 11 a 15 de dezembro de 2017, na Ufac. Todos lá! 

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.



terça-feira, 14 de novembro de 2017


Acre bate novo recorde de queimadas, superando 2016
* Ecio Rodrigues
Os ambientalistas que não gostam do governo atual porque eram amigos do anterior andam dizendo que o Brasil vai ser duramente questionado na COP 23, conferência da ONU sobre mudanças climáticas realizada na Alemanha, em função da pequena redução observada no desmatamento da Amazônia em 2017.
Veja bem, a insatisfação dos ativistas ambientais não decorre de majoração nos índices de desmatamento – como aconteceu em 2016, por exemplo –, mas do fato de que consideram muito pequeno o decréscimo (em torno de 19%) evidenciado na taxa medida em 2017 e anunciada no início deste mês.
 Ao que parece, as cobranças feitas aos gestores ambientais são bem maiores agora do que eram antes.  
Mas, por falar em cobrança, o que têm a dizer os ambientalistas a respeito dos dois recordes consecutivos de queimadas estabelecidos no Acre em 2016 e 2017?
Para entender. Excetuando-se 2005 (por conta do trágico incêndio que destruiu mais de 200.000 hectares de florestas), desde 1988, quando se iniciaram as medições, não se queimava tanto no território estadual como nos últimos dois anos.
Importante destacar que o recorde de 2017 foi registrado no início de novembro, ou seja, faltando ainda quase 60 dias para o término do ano.
          Aos que preferem conferir os números: em todo o ano de 2016 aconteceram 6.987 queimadas no Acre (esse total já foi recorde); até 06 de novembro de 2017, a quantidade de queimadas alcançou a inacreditável cifra de 7.031 focos, como demonstra o Programa de Monitoramento de Queimadas do conceituado Inpe.
Por outro lado, em outubro de 2017 foram detectadas 1.508 pontos de queimadas, o que representa recorde absoluto para esse mês desde 1988 – nesse caso, mesmo incluindo os incêndios florestais de 2005.
O inédito pico em outubro aponta uma nova dinâmica no contexto da produção agrícola do Acre. Desnecessário mencionar os riscos trazidos pela introdução de um ciclo diferenciado para a nefasta prática da queimada.
Alguns podem alegar, ingênua e defensivamente, que, na Amazônia, os fenômenos climáticos (cujas causas, aliás, incluem o desmatamento e as queimadas) tornaram o verão mais longo e o inverno mais curto – ou o contrário, não importa.
O fato a ser considerado é que o produtor adota a queimada como opção de investimento; em primeiro lugar, porque é permitido pela legislação (mesmo que pareça absurdo); e, em segundo, porque essa prática goza da tolerância dos gestores públicos, sempre preocupados com a próxima eleição.
Não havendo argumento contrário à constatação fartamente comprovada de que a motivação do produtor para queimar tem origem na política do governo direcionada para a ampliação da agropecuária (bem mais pecuária que agro), e no sentido de favorecer a pequena propriedade rural no Acre, restaria arguir sobre as razões para se queimar tanto em outubro.
Perguntas inconvenientes não devem ser feitas em época de eleição. Com a antecipação do calendário eleitoral e uma ruma de pré-candidatos fazendo campanha à luz do dia, melhor se fazer de morto, como dizem os produtores.
Sem resolver os entraves do desmatamento e da queimada, o Acre vai permanecer sem rumo. Como era nas décadas de 1990 e de 2000, e como continuará em 2020.

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal, especialista em Manejo Florestal e mestre em Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná, e doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília.