quinta-feira, 21 de julho de 2022

Depois da Ufac

 * Ecio Rodrigues

Aposentei-me hoje. Ou talvez ontem, não sei bem.

Trata-se de uma paráfrase da abertura de “O Estrangeiro”, que figura entre as mais célebres passagens iniciais de clássicos da literatura universal.

Mas serve para dar uma ideia do processo de aposentadoria dos funcionários públicos federais, onde nada é muito claro. Basta mencionar que para enquadrar cada situação à regra aplicável é preciso levar em conta uma série de variáveis e combinações estabelecidas por nada menos do que 5 emendas constitucionais.

Despedir-se da carreira docente não é decisão das mais simples. O empurrão definitivo veio agora, com o fim do período de ensino remoto que perdurou nos últimos 5 semestres letivos, desde a quarentena imposta pela pandemia de covid.

O sistema remoto trouxe novos desafios, e devo dizer que foi instigante a inédita experiência de preparar, gravar, compartilhar e debater com os alunos mais de 30 videoaulas. O encerramento desse ciclo suscitou em mim um sentimento de despedida que, associado aos riscos decorrentes do retorno ao ensino presencial, logo se converteu na certeza de que meu tempo de Ufac se completara.

Ou, para ser preciso, meu tempo na engenharia florestal da Ufac.

Considero-me um dos professores pioneiros do curso, já que cheguei ainda nos primórdios, e minha aula inaugural na Ufac foi para a primeira e inesquecível turma de engenheiros florestais graduados no Acre.

Desde então venho ministrando as disciplinas de Política Florestal e de Extensão Rural, o que me deu a oportunidade de interagir com quase 1.500 alunos ao longo dos anos e de contribuir (assim espero!) para a formação profissional desses jovens.

No caso de duas dezenas de destacados alunos, o enriquecedor convívio da sala de aula se estendeu aos projetos de extensão que tive a sorte de conduzir com o patrocínio do CNPq. Sempre envolvendo assuntos de relevância para a realidade local, esses projetos totalizam cerca de R$ 1.000.000,00 (em valores da época) – cifra que decerto está entre as maiores já obtidas por um professor da Ufac em financiamento de projetos.

O uso da palavra “sorte” é intencional. É que boa parte de minha trajetória profissional coincidiu com um período profícuo para a pesquisa, entre meados dos anos 1990 e o início da década de 2010, quando o CNPq contava com recursos e vontade política para o financiamento de projetos.

Depois de assumir a cátedra na Ufac, o primeiro projeto que eu e minha equipe logramos aprovar tinha o propósito de testar a viabilidade da criação comercial de animais silvestres amazônicos (paca, especificamente) no ambiente da pequena propriedade rural.

A experiência compreendeu, em suma, a instalação de um criatório rústico e a adaptação e acompanhamento de um plantel de 12 animais durante 2 anos.

Os resultados demonstraram que esse tipo de iniciativa é compatível com a realidade do meio rural do Acre, não trazendo dificuldades alheias ao cotidiano do produtor e permitindo ampliar em até 30% a renda dos colonos e extrativistas.

Posteriormente, uma parceria com a ONG germânica de ponta Instituto Floresta Tropical (na tradução livre para o português) nos levou às florestas marginais ao rio Purus, entre os municípios amazonenses de Boca do Acre e Lábrea, onde há ocorrência natural de árvores cacaueiras (Theobroma cacao).

Foi o ponto de partida para o projeto Cacau Nativo do Purus, a mais expressiva pesquisa de extensão até hoje levada a termo pela engenharia florestal da Ufac, que venceu 2 editais nacionais do CNPq e recebeu 400 mil reais em financiamento.

Tendo sido bem-sucedido no objetivo de introduzir – por meio da execução de plano de manejo – o fruto do cacaueiro na cesta de produtos coletada pelos extrativistas do alto Purus, o projeto contribuiu para fazer do cacau nativo um produto comercial, privativo da Amazônia, voltado para o atendimento do mercado internacional de chocolates premium, ou especiais.

São chocolates fabricados com alto teor de cacau e direcionados a um público de elevado poder aquisitivo.

A exemplo da empresa alemã que à época passou a adquirir o cacau colhido pelos ribeirinhos de Boca do Acre, esse mercado busca a singularidade da amêndoa amazônica e o seu flavor inconfundível, sui generis, distinto do sabor da semente oriunda dos monocultivos.

A pesquisa originou, entre outros documentos técnicos e acadêmicos, 3 dissertações de mestrado e 34 monografias, além de um livro publicado.

Mas seu maior legado certamente diz respeito à trilha desbravada e seguida agora por outras experiências no apoio à produção de cacau nativo, empreendimento exclusivo dos pequenos produtores que habitam as florestas adjacentes aos rios amazônicos.

O contato com os cacaueiros dispersos às margens do Purus trouxe a mata ciliar para o foco da engenharia florestal da Ufac. Assim, com o fito de oportunizar o estudo dessa vegetação fundamental para o equilíbrio dos rios, uma nova linha de pesquisa em extensão foi aberta no curso.

Começando pelo rio Acre e alcançando mais uma vez o alto Purus (desta feita na parte que corta o território acreano), a pesquisa sobre a mata ciliar repetiu o êxito obtido com o cacau nativo e também saiu vitoriosa em 2 editais nacionais do CNPq.

No âmbito do projeto Ciliar Só-Rio foi efetuado o inventário da mata ciliar do rio Acre e identificadas, mediante a formulação de um coeficiente (o IVI/Mata Ciliar – Índice de Valor de Importância), as 20 espécies endêmicas mais importantes para aquela floresta, que devem ser utilizadas para fins de restauração dos trechos críticos.

Outra contribuição do projeto foi a definição de uma metodologia destinada ao cálculo (sob parâmetros técnicos) da largura mínima a ser observada numa determinada localidade para a faixa de mata ciliar, no intuito de garantir a integridade do rio e o abastecimento urbano de água.

Essa largura foi computada para cada uma das 8 cidades cortadas pelo rio Acre e constou de uma proposta de legislação apresentada e discutida com os vereadores nas respectivas câmaras municipais.

Igualmente e com a mesma finalidade, o projeto Ciliar Cabeceiras ensejou o desenvolvimento de pesquisa inédita na mata ciliar do Purus – no trecho que vai da foz do rio Iaco, em Sena Madureira, até a região da nascente, no município de Santa Rosa, localizado na fronteira com o Peru.

Esses estudos forçam o entendimento de que os produtores ribeirinhos devem ser remunerados pelo serviço de manejar a mata ciliar, a fim de melhorar – em termos de quantidade e qualidade – a água que corre no leito e abastece as cidades a jusante de suas propriedades.

Os dois projetos geraram um significativo acervo de informações, incluindo uma tese de doutorado, 33 monografias e 2 livros editados.

Em 2011, entretanto, uma mudança de prioridade imposta pelo governo descontinuou o financiamento das pesquisas, sendo que a verba orçamentária do CNPq passou a ser inteiramente aplicada no programa Ciência sem Fronteiras.

Essa situação perdurou mesmo após o fim desse programa (o qual, aliás, malgrado seus pífios resultados, ainda carece de exame aprofundado), e a partir de 2019 tanto o CNPq quanto o próprio Ministério da Ciência e Tecnologia, muito mais por falta de competência do que outra coisa, submergiram num preocupante processo de letargia institucional.

No âmbito estadual, em face do que prevê a Política de Florestas do Acre, o governo apoiou a realização das Semanas Florestais, evento que recepcionava os calouros no início dos semestres letivos – e que tive a satisfação de idealizar e iniciar quando cheguei à Ufac, bem como de coordenar, juntamente com outros professores, durante as 10 primeiras edições.

É também com satisfação que contabilizo, em meus anos de Ufac e graças ao imprescindível auxílio de uma incansável equipe, a orientação de 148 monografias.

O trabalho em pesquisa demanda esforço coletivo e, sob esse aspecto, depende da sinergia, da contribuição e do entendimento que só uma equipe coesa e duradoura é capaz de propiciar.

Assim, agradeço imensamente aos professores Luiz Augusto Mesquita de Azevedo e Jairo Salim Pinheiro de Lima (Unesp), e aos pesquisadores Raul Vargas Torrico e Edivan Lima, pelos inestimáveis anos de parceria e valiosa colaboração para a formação dos engenheiros florestais.

Alguns assuntos me assombraram durante minha vida profissional, tornando-se objeto de estudo e reflexão, mas em nenhum investi tanto tempo, a nenhum me dediquei com tanto afinco como fiz em relação à pesquisa em torno do desmatamento da Amazônia e de sua intrínseca conexão com a pecuária extensiva.

Desse modo, praticamente toda a minha produção técnica e acadêmica se volta para uma obsessão: demonstrar que o boi está na origem da devastação florestal.

Os índices estatísticos são por demais elucidativos e comprovam, primeiro, que o desmatamento tem motivação econômica; segundo, que em mais de 90% das vezes se destina à instalação e ampliação de pastos.

Por outro lado, e diversamente do agronegócio profissionalizado que tem lugar no Sul e Sudeste, a pecuária exercida na Amazônia é arcaica e perdulária, apresentando baixíssima produtividade e disponibilizando, para o consumo de cada vaca, 2 hectares de pasto – ou seja, 2 hectares de floresta que foram desmatados e cultivados com capim.

A despeito de seu embasamento, todavia, a batalha que travo contra a pecuária na condição de principal responsável pela destruição da floresta tem sido um tanto solitária, e poucos me acompanham em minha obstinada jornada.

Do mesmo jeito que estou entre os poucos que apontam a nociva prática do desmatamento como o maior problema ambiental da região amazônica.

Essa lamentável qualificação costuma ser atribuída aos empreendimentos de mineração, incluindo o (superestimado) garimpo do ouro. Não passa de um equívoco, porém. E a explicação é simples.

Enquanto os impactos causados pela extração mineral são restritos e localizados, o desmatamento se processa de maneira alastrada e generalizada, avançando desde as faixas laterais das rodovias até as margens dos rios.

Resulta daí o contínuo alargamento das superfícies submetidas ao corte raso e, por conseguinte, a gradativa conversão da floresta em plantios de capim.

 

Enfim, não por vontade, mas divergências na interpretação da realidade fizeram surgir os embates.

Por sinal, um desses embates remete à motivação econômica do desmatamento – premissa que necessariamente faz concluir que o problema não está no ator social (o “grande” pecuarista), mas sim na opção produtiva (a pecuária).

É que os ambientalistas e setores da academia ligados aos movimentos sociais costumam deslocar a discussão para o campo da ética, como se a decisão entre desmatar ou não fosse questão de princípio moral.

Nessa linha, atribuem toda a responsabilidade pela destruição da floresta ao grande proprietário de terras, projetado na forma de uma alegoria – a do “poderoso e insensível pecuarista”, que seria movido por ganância e indiferença quanto à matéria ambiental.

Sem atentar para essa generalização descabida, cumpre destacar apenas que conforme evidencia a robusta base de dados fornecida pelo Inpe não importa se a propriedade é grande ou pequena, o ponto central é o exercício da pecuária, pois essa atividade depende do desmatamento para expandir seus pastos.

O olho do furacão está, portanto, na decisão tomada pelo produtor, seja o grande ou o pequeno, no sentido de investir na criação de boi solto no pasto.

E ele o faz por razões econômicas, visto que hoje, no setor primário da Amazônia, nenhum negócio compete com o do boi – considerando regulação, assistência estatal e tempo de retorno financeiro. Muito menos as iniciativas de natureza florestal.

Só quando o potencial da biodiversidade para a geração de riqueza se tornar uma possibilidade concreta de auferir renda – ou, em outras palavras, só quando o mercado florestal for tão atrativo quanto o do boi –, o produtor chegará a optar por investir na exploração dos serviços e produtos fornecidos pela floresta no lugar de criar gado.

Não há dúvida, a saída está na valoração comercial da biodiversidade florestal. Esse é o principal antidoto ao desmatamento legalizado – veja bem, o legalizado, não o ilegal. E eis aqui mais uma divergência.

Acontece que para o movimento ambientalista só existe, basicamente, desmatamento ilegal (o que nem de longe é verdade; e se fosse, estaríamos mergulhados, provavelmente, no obscurantismo do caos institucional).

Dentro dessa perspectiva, os ativistas defendem como solução para o problema o investimento em fiscalização.

Mais um equívoco.

É fato comprovado que os governos nunca deixaram de assegurar recursos ao aparato fiscalizatório. Além do que a série histórica do Inpe, que compreende mais de 30 anos de sólidas medições, mostra claramente que a fiscalização, apesar de infligir onerosos custos à sociedade, não resolve, quando muito produz efeitos de curto prazo.

Significa dizer que não tem operação fiscal que dê jeito, o produtor sempre volta a desmatar.

Por fim, o mundo espera que o Brasil reduza a zero a devastação anualmente perpetrada na Amazônia, e os países que aderiram ao Acordo de Paris não querem saber se a legislação infranacional tolera o corte raso das florestas.

De sorte que essa distinção entre desmatamento ilegal/legalizado caducou, perdeu a validade.

Mudando de controvérsia e passando a tratar da gestão das universidades federais – tema em cujo estudo e diagnóstico também empenhei meu tempo e intelecto –, outra coisa que caducou foi a eleição para reitor.

Faltam indicadores que retratem a rotina administrativa do ensino público superior e, em especial, a relação custo x benefício das universidades federais – o que poderia, por sua vez, ajudar a entender a relação entre o perfil dos gestores e a qualidade dos serviços prestados.

Sem embargo, a experiência adquirida ao longo dos anos demonstra a inadequação do sistema de eleição para a escolha dos reitores.

Bastaria uma análise do currículo e do desempenho dos que exerceram esse cargo nos últimos 30 anos para concluir o óbvio – em regra, não têm o perfil de gestor requerido para a função, e raros são os casos de eleitos que demonstraram ou reconhecida capacidade de gestão ou excelência em sua respectiva área de atuação, ou ambas. Afinal, ninguém vota num candidato por esses motivos.

As poucas informações disponíveis deixam entrever que geralmente se sai melhor no pleito quem tem mais facilidade para transitar entre os grupos da comunidade acadêmica e negociar apoio, principalmente entre os funcionários – e a última coisa que é enfocada é competência para administrar a universidade.

Quase sempre hábeis em se comunicar e angariar simpatia, esses candidatos são bons de voto, mas não se propõem a intervir para melhorar a esquizofrênica rotina universitária ou a vivência acadêmica, e dificilmente conseguem dissertar sobre a realidade econômica da cidade, da região ou do ecossistema onde se localiza a instituição.

Embora tida como símbolo da autonomia universitária, a verdade é que a votação ocorre sob boa dose de hipocrisia e – mesmo recebendo a designação de “consulta” – exibe os mesmos níveis de acirramento, vulgaridade, superficialidade e irrelevância observados em eleições de sindicatos.

Ou seja, um formato indigno da academia, de uma instituição de pesquisa que, pelo menos em tese, representa a elite científica e intelectual do país.

Diante dessas idiossincrasias, com o tempo o procedimento foi perdendo o relevo e o significado, tornando-se anacrônico, e hoje parece ultrapassado até mesmo para o contexto sindical.

A consequência natural e perceptível é o esvaziamento do pleito, já que tanto eleitores quanto possíveis concorrentes perdem o interesse e se afastam. Não é incomum que um grupo qualquer de professores e servidores vinculado ideologicamente a algum partido passe a monopolizar o processo, logrando eleger seus candidatos durante um tempo, até ser substituído por outro grupo.

Dessa forma, muitas vezes um único candidato participa da eleição, mas mesmo assim não obtém representatividade. E para compor a lista tríplice a ser encaminhada ao MEC, como prevê a legislação, são incluídos dois nomes de professores que sequer tomaram parte do escrutínio. Uma conduta administrativa que apesar de tolerada contraria princípios elementares da boa gestão.

Enquanto isso, os entraves de gerenciamento e gestão das universidades federais só se aprofundam.

E mesmo sendo gratuitas, mesmo fornecendo alimentação, mesmo disponibilizando bolsas sob amplos critérios, mesmo despendendo mais recursos per capta, as universidades federais vêm, ano após ano, perdendo matrículas para a rede particular.

Essa é a situação da Ufac, que nos últimos anos tem visto reduzir acentuadamente a quantidade de ingressos em seus cursos enquanto aumentam as admissões em faculdades particulares como a Uninorte – que, aliás, em 20 anos de funcionamento superou a universidade federal em número de alunos matriculados.

Finalmente, não poderia me despedir sem agradecer à Oscip Associação Andiroba, entidade que recepciona em seu site institucional há mais de 15 anos textos de minha autoria (este, inclusive) abordando temas de política pública afetos à Amazônia e ao Acre, além de conteúdos relacionados ao desenvolvimento sustentável e às implicações do desmatamento e das mudanças climáticas.

Com periodicidade semanal, esses escritos somam cerca de 50 artigos por ano, inteirando mais de 450 no total, até o momento.

Também contei com o fundamental suporte da Associação Andiroba para a publicação de 18 livros que ajudam a esclarecer o eterno dilema que opõe os ideais do preservacionismo aos do conservacionismo, e que a Amazônia não consegue superar.

Entre as viagens, leituras e outras aprazíveis atividades de que pretendo me ocupar agora que estou aposentado, persistirei na peleja em defesa da valoração comercial da biodiversidade florestal como único caminho para o desmatamento zero na Amazônia e, no caso do Acre, única porta para o desenvolvimento econômico.

Ainda não estou pronto para renunciar à minha obsessão.

Não tenho dúvida, por outro lado, que uma economia de baixo carbono, sem petróleo e sem gado no pasto, deverá prevalecer no futuro do Acre. Tomara que esse futuro chegue logo.    

Enfim, depois da Ufac nos encontramos por aqui.

*Professor aposentado da Universidade Federal do Acre.

 

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Política Florestal de 2001 garantiu produção de madeira manejada no Acre

 * Ecio Rodrigues

Em dezembro de 2021, a Política Florestal do Acre, instituída pela Lei Estadual 1.426/2001, completou 20 anos – e, desse modo, pode ter encerrado o seu prazo de vigência.

A despeito de nunca ter sido objeto de prioridade por parte dos gestores públicos e muito menos de ter recebido alguma atenção da imprensa, essa legislação representou um verdadeiro marco, um divisor de águas no que respeita à economia florestal do estado.

Estudos realizados pelos engenheiros florestais da Ufac no decorrer do projeto “Política Florestal do Acre 20 anos depois” demonstram os efeitos dessa diretriz de política pública para fomentar a contribuição da biodiversidade florestal na geração de riqueza em âmbito estadual.

A análise abrangeu o período de 1990 a 2020, tendo-se embasado, pelo prisma da economia, nas informações do IBGE acerca da realidade produtiva do estado; e pelo lado ambiental, nos índices anuais de desmatamento levantados pelo Inpe.

Os resultados não deixam dúvida: sob ambos os aspectos, nota-se significativa melhora nas estatísticas a partir de 2001, ou seja, depois que a política foi implementada.

Os impactos podem ser observados tanto no sentido do aumento da participação de produtos da biodiversidade florestal na composição do PIB estadual quanto na redução, mesmo que temporária, do desmatamento. (Para ler mais, acesse: Associação Andiroba).

Os números relacionados à produção madeireira são bastante elucidativos, dando uma boa medida desses impactos.

Mas, primeiro, cabe um pequeno esclarecimento. É que o mercado trabalha com 3 tipos de madeira em tora, todos legalizados, todavia, diferenciados entre si – tanto em termos de classificação quanto de preço, de acordo com sua procedência.

A mais desvalorizada é a madeira do desmatamento. Trata-se das toras que saem das áreas desmatadas (via processo de licenciamento ambiental) para o cultivo de pastos/roçados, e que resultam do corte raso da floresta, sendo retiradas e comercializadas pelo produtor antes da realização da queimada.

Depois vem a madeira manejada – isto é, a que provém das áreas exploradas mediante estrita observância das técnicas de manejo e sob a orientação de engenheiros florestais.

Por último, o produto mais valorizado, a madeira certificada. Em suma, é a mesma madeira fornecida pelas florestas manejadas, mas que foi submetida a um rigoroso procedimento de verificação de origem, para fins de obtenção do selo verde outorgado pelo FSC (Conselho Internacional de Manejo Florestal). (Para ler mais, acesse Associação Andiroba). 

Nos 10 anos anteriores à vigência da política (entre 1990 e 2000), a produção de madeira em tora permaneceu na casa dos 25.000 m3 anuais, inteirando 236.000 m³ no respectivo período.

Nos 10 anos seguintes (entre 2001 e 2009), saltou para 35.000 m³/ano, o que totaliza mais de 353.000 m³ em todo o período.

De outra banda – e contrariando o senso comum, que associa a disponibilidade de madeira ao aumento da destruição florestal –, pode-se dizer que esse crescimento ocorreu de forma concomitante com a redução das taxas anuais de desmatamento.

Mesmo quando a análise é efetuada em nível mais localizado, no plano das regionais administrativas, constata-se que a oferta de madeira em tora se manteve estável e indiferente à dinâmica do desmatamento.

Em vista da expiração da política de 2001 e da proximidade das eleições, o momento é oportuno para o debate em torno da instituição de uma nova política florestal, dita de segunda geração.

Duas conclusões dos pesquisadores precisam ser bem compreendidas, de modo a subsidiarem essa discussão.

Em primeiro lugar, a madeira manejada – produzida em conformidade com os métodos e parâmetros preconizados pela engenharia florestal – representa mais de 90% da cadeia produtiva.

Significa afirmar que não existe mais, no Acre, oferta de madeira ilegal – pelo menos em escala estatisticamente relevante.

Em segundo lugar, a produção madeireira – mesmo levando em conta a capacidade instalada de uma indústria consolidada, que opera num contexto bem diverso do vigente nas décadas de 1980 e 1990, caracterizado pelas chamadas serrarias de ramal – responde muito positivamente ao menor apoio oferecido pela política pública.

Para a escolha do candidato a governador, vale a pena procurar quem se disponha a incluir em seu plano de governo uma nova política para a madeira e os demais produtos da biodiversidade florestal.

 

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

segunda-feira, 27 de junho de 2022

A árvore de seringueira não, mas a borracha do Acre foi extinta

 * Ecio Rodrigues

Classificado como “ouro branco” no final do século XVII, o látex oriundo da árvore de seringueira fez surgir o mais importante e duradouro ciclo econômico da Amazônia – que proporcionou à região uma riqueza jamais igualada por nenhum outro produto do setor primário.

Basta dizer que as receitas geradas no período superam em muito os ganhos decorrentes da exportação das drogas do sertão, do cacau nativo e mesmo das espécies madeireiras, incluindo o mogno.

Embora existam divergências relacionadas às datas de início e termo final, parece ser consenso, entre os pesquisadores que se dedicam ao tema, que a história econômica da Amazônia registra, na verdade, dois ciclos da borracha – ou seja, dois intervalos de tempo distintos, marcados por pico de produção e de exportação.

O mais longo e profícuo, que perdurou por mais de 30 anos, iniciou-se nos idos de 1880, quando ocorreram as primeiras remessas (para Boston, EUA), tendo vigorado até 1911.

A partir daí, os seringais cultivados na Malásia pelos engenheiros florestais ingleses começaram a dominar o comércio internacional, condenando os seringais nativos a um declínio fulminante e irremediável.

Posteriormente, e de maneira excepcional, a convulsão econômica trazida pela eclosão da Segunda Guerra deu uma sobrevida ao látex extraído da Hevea nativa – que voltou a abastecer o mundo, retomando assim, por um breve período (de 1940 a 1945), sua relevância comercial.

Com o fim da guerra, todavia, a derrocada foi definitiva e a seringa amazônica desapareceu do mercado mundial.

Dessa forma, a contar de 1912, os seringais amazônicos entraram em colapso (situação em que permaneceram até 1939 e para a qual retornaram após 1945), impondo à região uma perdurável letargia econômica e legando um excedente de trabalhadores desocupados e sem perspectivas de recolocação no setor primário.

No decorrer dos anos, estados como Pará e Amazonas, mais bem posicionados estrategicamente (em termos de ligação fluvial ou rodoviária com o Sudeste do país), conseguiram superar essa letargia, mas em outros a pobreza persistiu e a economia nunca chegou nem perto da pujança alcançada nos tempos áureos.

Especificamente no caso do Acre, até meados da segunda metade do século XX a geração de empregos e de riqueza continuaria vinculada à decadente extração de borracha – que, por sua vez, passou a operar sob ganhos bem reduzidos (eis que a exploração dos seringais nativos importa em custos elevados) e a depender continuamente, todos os anos, do suporte financeiro de Brasília.

Por mais que alguns autores batam na tecla do abandono da produção gomífera por parte do governo federal, não é isso que demonstram as estatísticas e fatos históricos.

Acontece que ao longo das décadas diversos instrumentos de política pública foram instituídos com a finalidade de possibilitar a transferência de recursos ao estado e dessa forma manter o cambaleante mercado de borracha nativa.

Até a década de 1970, os repasses eram efetuados por meio dos então vigentes Planos de Valorização Econômica. Depois, passaram a se dar via Probor - Programa de Incentivo à Produção de Borracha Natural, que tinha o objetivo de promover a domesticação e o cultivo comercial da seringueira.

O apoio fornecido pela política pública perdurou no tempo e ainda hoje se processa por diversos meios – tais como concessão de subsídios (como o outorgado em 1999) e investimento na criação e estruturação de reservas extrativistas. 

Entretanto, mesmo sob esse significativo e permanente arrimo, a borracha nativa do Acre continua agonizante e nunca voltará a alcançar alguma relevância econômica, muito menos chegará a competir com a cultivada nos seringais de São Paulo, que desde 1993 batem o próprio recorde anual de produção.

Poucos pesquisadores se atentam para esse aspecto, contudo, durante o ciclo da borracha, tanto os seringalistas (na condição de patrões) quanto os seringueiros (na condição de trabalhadores) atuavam no sentido de conservar as árvores, isto é, reduzindo o risco de exaustão e, por conseguinte, de extinção da espécie.

A seringueira do Acre nunca correu risco de supressão ecológica, mas o produto borracha nativa foi comercialmente extinto, e já não existe para o mercado.

 

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Madeira é energia limpa em todo o mundo – e na Amazônia também!

 * Ecio Rodrigues

Apresentando baixo potencial para geração de energia fotovoltaica e menor ainda para energia eólica, a porção do território nacional coberta pela maior floresta tropical do mundo possui água e madeira em abundância.

Contudo, se por um lado não existem dúvidas científicas em relação à viabilidade econômica e adequação ecológica tanto do aproveitamento da força das águas quanto da biomassa florestal para a produção de energia elétrica, por outro, nota-se, arraigado no movimento ambientalista, um profundo preconceito contra o uso dessas fontes renováveis.

Como todo preconceito, a rejeição dos ambientalistas à água e à madeira não pode ser racionalmente explicada – a despeito de contar com o apoio de alguns acadêmicos, que, por sua vez, costumam pautar a imprensa.

E, como em geral acontece, o preconceito obedece a certa graduação. De sorte que, sendo o repúdio às caldeiras maior ainda do que às hidrelétricas, para os ativistas ambientais o emprego da madeira na geração elétrica é algo abominável, fora de cogitação.

Não precisa ir muito longe para demonstrar o quanto estão equivocados.

É farta a literatura científica que comprova os benefícios sociais, econômicos e ecológicos advindos da produção de eletricidade com base na biomassa florestal – matéria-prima que, ao contrário do óleo diesel (ainda hoje muito usado na região) é compatível com a realidade amazônica.

Seja no cenário urbanizado das capitais e maiores cidades, seja no contexto dos pequenos municípios e de localidades isoladas, o potencial presente na Amazônia para o uso da madeira como fonte de energia renovável configura significativa vantagem comparativa, sobretudo no que respeita à ascendente economia de baixo carbono.

Não à toa, durante a COP 26, realizada ano passado na Escócia, a ONU tomou as rédeas da regulação do mercado de carbono em todos os continentes, objetivando potencializar a utilização de fontes limpas de energia, sendo a madeira uma das principais.

Dessa forma, e diante do esforço para descarbonizar a economia planetária, onde houver floresta nativa com disponibilidade de madeira, a queima em caldeiras para fornecimento de eletricidade será priorizada. Esse é o pensamento vigente em todo o mundo, em especial depois da celebração do Acordo de Paris.

Com o agravamento da crise ecológica, o que se percebe é que a humanidade acordou – e hoje o produto madeira é contemplado sob o mesmo ponto de vista pelo qual se distinguem as florestas, nativas e cultivadas.

Simples de entender. Afinal, cada árvore que é transformada em tora, fatiada em cavacos e levada ao fogo em caldeiras, para o fim de aquecer a água ali depositada e gerar eletricidade, retira da atmosfera a mesma quantidade de carbono desprendida na fumaça.

O resultado é uma energia produzida com balanço zero na equação de carbono, numa relação perfeita de equilíbrio.

Mas não é só no balanço de carbono que o emprego da madeira como fonte renovável de energia é estratégico para a Amazônia.

Ocorre que tanto os procedimentos de derrubada, transporte e beneficiamento da tora, pelo lado do produtor de energia, quanto, pelo lado do produtor rural, de preparação da muda, plantio e acompanhamento da árvore são executados de acordo com as técnicas estipuladas pelo manejo florestal.

Ora, não é necessário grande empenho para prognosticar, por efeito da aplicação dessa tecnologia, o surgimento de significativo número de vagas de emprego compatíveis com a especialidade de um crescente contingente de técnicos e trabalhadores na região.

Agora, conjecture-se que dezenas de cidades amazônicas – como é o caso de Marechal Thaumaturgo, Manoel Urbano, Porto Walter, Santa Rosa do Purus, Jordão, situadas no interior do Acre – façam a transição da geração a óleo diesel para a geração por biomassa florestal.

Conjecture-se ainda que centenas de empreendimentos madeireiros – mesmo pequenas serrarias – podem adquirir caldeiras, produzir eletricidade e vender a energia gerada para todo o país, por meio do SIM (Sistema Interligado Nacional).

Conjecture-se, por fim, o impacto positivo dessa produção sobre a realidade de lugares longínquos, que, a exemplo do Acre, se assentam na periferia da economia brasileira.

Fácil concluir que pouco importa a resistência dos ambientalistas. Dada sua disponibilidade, a madeira se converterá num tentador diferencial de mercado no âmbito do setor de geração de energia elétrica na Amazônia.

Moral da história: como demonstra a experiência humana, o preconceito subsiste apenas no obscurantismo, desaparecendo com a claridade que a ciência traz.

 

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Água e madeira no futuro da energia elétrica na Amazônia

 

* Ecio Rodrigues

Não se deve confundir matriz energética com matriz elétrica.

A primeira se refere à oferta total de energia – da lenha queimada em fornos ao combustível consumido para o transporte de cargas e pessoas. Quanto à segunda, diz respeito especificamente a geração de energia elétrica.

Em ambos os casos, contudo, o Brasil está muito bem na foto.

Graças às águas abundantes nos rios brasileiros, em especial nos leitos amazônicos, quase 50% da matriz energética do país é gerada por fontes renováveis. Trata-se de uma marca alcançada por poucos – um grupo muito seleto de nações que ostenta os menores níveis de dependência em relação ao petróleo, e que pode se vangloriar por isso.

Enquanto, em 2021, a participação das fontes renováveis na produção mundial de energia foi de apenas 13,9%, no Brasil, diante da oferta proveniente das hidrelétricas e da importante contribuição trazida pelo etanol e pela biomassa florestal, essa participação chegou a 48,6%.

Esses dados, ressalte-se – fornecidos pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética), estatal vinculada ao Ministério das Minas e Energia –, não incluem as taxas de geração por fonte nuclear, que são limitadas e tendem a se restringir ainda mais, já que Alemanha e outros países da Europa e da Ásia planejam desligar suas respectivas usinas.

De outra banda, e ainda segundo a EPE, nada menos que 65,2% da eletricidade aqui produzida se origina da força das águas. Outros 9,1%, por seu turno, provêm da queima de biomassa; 8,8% resultam da ação dos ventos e 1,7%, do aproveitamento da luz solar. 

No total – e por conta, sobretudo, das 158 hidrelétricas em operação no país –, as fontes renováveis respondem por mais de 80% da matriz elétrica brasileira, proporção muito superior aos 30% apurados em face da matriz mundial.

Por óbvio, e considerando ademais os compromissos assumidos pelo Brasil perante o Acordo de Paris, a previsão é que essa proporção se amplie significativamente até 2030.

Afinal, em vista da transição que está em curso na indústria automobilística, do motor a combustão para o elétrico (saiba mais aqui: http://www.andiroba.org.br/artigos/?post_id=3758), é necessário aumentar a participação da matriz elétrica na matriz energética nacional, de modo a possibilitar a assimilação da demanda trazida pela chegada dos novos veículos movidos a eletricidade – primeiro os de passeio, depois os utilitários e, por fim, os caminhões de carga pesada.

Muito embora já existam no Brasil, como dito, mais de 150 hidrelétricas em funcionamento (contando apenas as de médio e grande porte), gerando energia limpa e posicionando o Brasil como referência mundial no assunto, parte expressiva do movimento ambientalista ainda se opõe à instalação desses empreendimentos, principalmente quando o rio a ser represado se situa na Amazônia.

A absurda gritaria em torno da construção das usinas de Belo Monte, no Pará, e de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, e que trouxe relevante aumento nos custos, causando prejuízos irreparáveis ao país, dá uma medida das dificuldades enfrentadas todas as vezes que uma hidrelétrica começa a ser levantada.

A despeito de contar com o inexplicável apoio de meia dúzia de acadêmicos, a resistência dos ativistas, longe de se justificar, contraria a ciência – e o bom senso!

Ocorre que, além de configurarem alternativa sustentável para a geração de energia, adequando-se à rede fluvial, as hidrelétricas, juntamente com as caldeiras alimentadas por biomassa florestal (madeira), se traduzem em opção econômica prioritária para a Amazônia.

A geração de energia elétrica renovável, que representa um ativo excepcional, pode ser a saída para tirar a região da persistente estagnação econômica decorrente da criação extensiva de boi.

Todavia, e ao contrário do que muita gente pensa, o que existe em fartura na Amazônia não é o vento e a luz do sol, mas sim, água e madeira.

 

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

domingo, 24 de abril de 2022

Fiscalização é solução paliativa para desmatamento na Amazônia

 * Ecio Rodrigues

De uma análise ligeira constatam-se 3 pontos de inflexão na curva do desmatamento da Amazônia.

Os dois primeiros se referem aos níveis recordes de desmatamento alcançados em 1995 e 2004. O terceiro, por outro lado, marca o ano de 2012, o único (até hoje) em que a destruição florestal atingiu uma área inferior a 5.000 km2.

As estatísticas demonstram com clareza que a fiscalização ajuda, todavia – e a despeito de impingir altíssimos custos ao orçamento público, tanto na esfera federal quanto no âmbito dos 9 estados amazônicos  – está longe de ser a saída para zerar o desmatamento na região.

O caso do recorde de 1995 é exemplar para entender o efeito da fiscalização. Em decorrência da intensa ação fiscalizatória levada a cabo no período pós-recorde, a taxa de desmatamento sofreu queda abrupta em 1996; contudo, já a partir de 1998 se observa a retomada da tendência de alta. 

Ou seja, ainda que as ações de controle produzam efeito imediato, levando o desmatamento a cair, a tendência de queda não se mantém por muito tempo, por uma razão simples, a fiscalização intimida e pressiona o produtor, mas não lhe oferece alternativa de renda.

Sob poucas variações, esse cenário se repetiu depois do recorde de 2004 e permaneceu até 2012, quando o desmatamento atingiu o menor nível já aferido. A partir de 2013, teve início uma retomada lenta, porém persistente, da destruição florestal na Amazônia.

A conclusão, um tanto óbvia, é que só será possível estancar, reduzir e zerar o desmatamento (o ilegal e o legalizado) mediante a valorização econômica da biodiversidade florestal.

Explicando melhor. Compete à política pública promover e fomentar um modelo de ocupação produtiva que leve em conta, na planilha de custos dos empreendimentos, as externalidades sociais e ambientais decorrentes da destruição florestal.

A teoria econômica disponibiliza mecanismos direcionados a minimizar os efeitos das externalidades geradas pelas atividades produtivas – em especial, no caso da Amazônia, a criação extensiva de boi.

Tais mecanismos podem ser classificados em dois grandes grupos: comando/controle e poluidor/pagador.

São inerentes ao comando/controle (até agora priorizado pela política pública, mas, como dito, sob resultados questionáveis) as ações relacionadas à fiscalização e ao exercício do poder de polícia, como autuação e cominação de multa.

Diferentemente, o princípio do poluidor/pagador se volta para impor ao empreendedor os custos associados aos impactos sociais e ambientais causados pelo seu empreendimento. Em resumo, os instrumentos baseados nesse princípio se destinam a taxar as atividades poluidoras e premiar as atividades limpas.  

O cardápio disponível para o gestor público é variado e extenso, e inclui desde a oferta de crédito mais barato às iniciativas que contribuem para a sustentabilidade até a taxação das atividades predatórias – o desmatamento legalizado, por exemplo.

No princípio do poluidor/pagador se insere o instrumento denominado Pagamento por Serviços Ambientais, ou PSA, que garante ao produtor uma remuneração pela oferta de serviços ambientais, em especial os relacionados à qualidade da água, do ar, e à conservação da biodiversidade florestal.

Nesse sistema, portanto, o produtor tem a opção de, ao invés de desmatar, ganhar dinheiro com o manejo da área de floresta presente em sua propriedade, a fim de retirar carbono da atmosfera e contribuir para a melhoria da qualidade do ar e, claro, para a sustentabilidade do planeta.

Se, eventualmente, a área de floresta conservada corresponder à mata ciliar, o manejo será orientado para melhorar a qualidade da água fornecida à população urbana localizada a jusante da propriedade.

Para o funcionamento do sistema PSA é necessário estabelecer um fluxo contínuo e permanente de recursos, de forma a possibilitar que o dinheiro desembolsado pelo comprador do crédito de carbono, depois de passar por uma instituição de validação da transação, venha a ser depositado na conta do produtor.

Esse fluxo, contudo, jamais chegou a ser viabilizado. É provável que a saída esteja na comercialização dos créditos nas bolsas de valores, como preconiza o modelo adotado pelos países que já ingressaram no mercado de carbono.

Um passo significativo foi dado durante a COP 26, realizada ano passado na Escócia, ocasião em que foi reforçada a importância do mercado de carbono em relação às metas assumidas no Acordo de Paris.

Não apenas o PSA, mas também outros instrumentos conexos ao princípio do poluidor/pagador podem ser introduzidos na região, com o objetivo precípuo e urgente de superar as fragilidades do modelo baseado na fiscalização. Este, sim, exibe gargalos comprovadamente intransponíveis.

Afinal, mesmo depois de 40 anos de fiscalização, autuação e imposição de multas, o desmatamento na Amazônia se mostrou mais persistente que os governos, todos eles.

 

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Incêndios, queimadas e o seguro de florestas na Amazônia

 * Ecio Rodrigues

De forma geral, todos os anos, no período de seca, quando surge o risco de ocorrência de incêndios florestais na Amazônia, o clamor e a gritaria costumam ser intensos. Contudo, as apreensões não se convertem em ações efetivas.

Aqui, importa diferenciar os incêndios florestais das queimadas, eis que muitas vezes os jornalistas (e mesmo uma parcela dos ativistas ambientais) não fazem essa distinção e, equivocadamente, abordam os dois perniciosos eventos como se similares fossem – ou seja, como se correspondessem a duas designações diferentes para a mesma mazela.

Ocorre que, muito embora o fogo ateado para a limpeza de pastos ou roçados possa sair do controle e, uma vez favorecido por fatores climáticos, possa alcançar a floresta, os dois conceitos não se confundem: enquanto a queimada configura prática agrícola de periodicidade anual amplamente empregada no meio rural, principalmente para a renovação de pastos, o incêndio florestal atinge as árvores em seu ambiente.

Tendo em vista que a floresta tropical, por conta de sua umidade, dispõe de natural proteção contra o fogo, trata-se o incêndio de sinistro raríssimo, mas, quando acontece, suas consequências são muito trágicas.

Resumindo, queimada não é sinônimo de incêndio florestal. E vice-versa.

Todavia, a confusão entre um e outro atrapalha bastante as discussões e, por conseguinte, a cobrança por respostas efetivas.

Por sinal, os gestores ambientais se aproveitam desse equívoco para confundir ainda mais a imprensa e, obviamente, desviar do assunto. A imprensa, por seu turno, perde um tempo considerável refutando as quase sempre disparatadas declarações do governo. Enquanto isso, ano após ano os problemas se agravam, sem que se vislumbre saída nem para as queimadas nem para os incêndios florestais.

Mas o tempo urge, é preciso agir. Para chegar a soluções de curto prazo, a política pública deve se guiar por dois caminhos.

O primeiro aponta para a imposição de medidas destinadas a zerar, já em 2022, as queimadas na Amazônia, em especial a decretação de abrangente moratória, proibindo o licenciamento da prática durante todo o período de seca (que vai de maio a outubro).

O segundo, que diz respeito aos incêndios florestais, é bem mais complexo, pois parte do leite já foi derramado. Isto é, de acordo com as evidências científicas, o desmatamento na Amazônia (que é perpetrado, sobretudo, para fins de instalação de pastos) causou a fragmentação de áreas florestais em porções descontínuas – o que, no caso de determinadas localidades e sob determinadas circunstâncias, cria condições propícias à deflagração de incêndios.  

Significa dizer que nessas localidades – algumas das quais, inclusive, como a Reserva Extrativista Chico Mendes, já foram objeto de projetos de pesquisa – o risco de a biodiversidade florestal vir a ser consumida pelo fogo é elevado.

Não se pode esquecer, afinal, que uma conjugação de fatores como umidade relativa baixa, longo período sem chuva e queimadas de pasto no entorno resultou na catástrofe que teve lugar no Acre em 2005, quando mais de 200.000 hectares de florestas arderam em chamas.

Em tal contexto, uma alternativa disponibilizada nos Estados Unidos e na Austrália, países onde as florestas (nativas e plantadas) estão sujeitas a permanente ameaça de incêndios, é o seguro rural.

Certamente o debate em torno da securitização de áreas de floresta nativa da Amazônia é muito recente, revestindo-se de extrema complexidade – a despeito da experiência acumulada pelas companhias seguradoras na análise de risco.

Não à toa, essas organizações já desenvolveram metodologias voltadas para quantificar e precificar o risco de sinistro em relação às florestas plantadas do Sul e Sudeste do país.

Pois bem, o desafio é trazer essa experiência para o espaço amazônico, onde a floresta nativa, por um lado, coexiste com a pecuária extensiva (que emprega a queimada de forma corriqueira) e, por outro, sofre os efeitos da seca extrema, causada, por sua vez, pelo desequilíbrio do clima.

Na realidade da Amazônia, a legislação permite que o produtor faça uso da queimada todos os anos, mas quando o fogo extrapola o pasto e avança sobre a reserva legal, favorecido pelas condições climáticas, o que era queimada pode se transformar em incêndio florestal.

Se a queimada representa uma ação intencional e premeditada de aproveitamento do fogo, um incêndio florestal adquire proporções de tragédia, causando prejuízos exorbitantes.

 A pergunta a ser respondida é de que maneira é possível determinar, no que respeita ao sinistro incêndio florestal, o risco decorrente da ação humana, ao desmatar e queimar, e ao mesmo tempo, o decorrente dos fenômenos El Niño e La Niña.

Ao que se observa, as empresas de seguro ainda resistem em aceitar as calamidades originadas das alterações climáticas como passíveis de previsibilidade sob algum grau de certeza.

Sem embargo, já existe demanda a motivar a aplicação das metodologias de análise de risco e de elaboração de plano de contingência em face dos incêndios florestais, o que abre espaço para um novo e importante campo de atuação das seguradoras.

Encerrando, a criação extensiva de boi, atividade que depende do desmatamento e que se vale da queimada como procedimento usual, está na origem do risco de ocorrência de incêndios na floresta amazônica – até mesmo quando praticada pelo pequeno produtor.

Romantismo à parte, a perda econômica resultante de cada hectare de biodiversidade florestal eventualmente destruído pelo fogo justifica, por óbvio, a discussão sobre a securitização.

 

 

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR) e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).

terça-feira, 12 de abril de 2022

Política Florestal do Acre, 20 anos depois

 * Ecio Rodrigues

Em 2001, numa iniciativa que merece elogios, o Acre se tornou o primeiro estado amazônico a instituir sua própria política florestal.

Entre outros, dois propósitos primordiais orientavam a política florestal acreana, introduzida pela Lei Estadual 1.426/2001. Primeiro, a contenção da tendência de alta para posterior redução dos índices de destruição florestal; segundo, mas não menos importante, a ampliação da participação da biodiversidade florestal na geração de riqueza e, por conseguinte, na composição do PIB estadual.

Depois de 20 anos de execução, e tendo em conta esses ambiciosos objetivos, surge de pronto a pergunta: foram alcançados?

Uma equipe de pesquisadores conduzida pelo professor Luiz Augusto Mesquita de Azevedo, da Ufac (Universidade Federal do Acre), e que contou com a participação ativa da Unesp de Ilha Solteira, na pessoa do professor Jairo Salim Pinheiro de Lima, nos últimos 2 anos, empreendeu uma análise minuciosa –  mais do que necessária, diga-se – sobre o período de vigência da política (2001 a 2020).

Os resultados dessa investigação, que originou 5 monografias aprovadas no curso de Engenharia Florestal da Ufac, além de 4 artigos científicos publicados, permitem concluir que a Política Florestal do Acre foi uma experiência exitosa.

As medições levadas a efeito em território estadual demonstram que entre 1991 e 2000 a média anual do desmatamento foi bem superior à contabilizada nas duas décadas seguintes.

Ainda que a retração do desmatamento tenha sido mais intensa logo após 2001, enfraquecendo a partir de 2011, a redução da destruição florestal em relação aos 10 anos prévios à promulgação da norma é uma verdade estatística. (Para saber mais sobre desmatamento no Acre acessar: Associação Andiroba).

Parece certo que um conjunto de variáveis pode influir na dinâmica do desmatamento. Sem embargo, todos hão de concordar que a reversão da tendência de alta que vinha se configurando na década anterior e a contração do desmatamento a partir da entrada em vigor da política florestal não podem ser mera coincidência.

Resumindo, é inegável que o declínio do desmatamento foi mais forte na primeira década de implantação da política (2001 a 2010) e que, depois (2010 a 2020), a destruição florestal recuperou fôlego.

Contudo, é inegável também que durante todo o prazo de vigência da política, que vai de 2001 a 2020, os níveis de desmatamento são bem inferiores aos aferidos nos anos precedentes.

Mesmo raciocínio vale para a produção oriunda da biodiversidade florestal. Dos 4 produtos examinados (borracha, açaí, castanha e madeira em tora), 3 deles tiveram ampliadas sua oferta e participação no PIB estadual desde que a política florestal foi implementada.

A exceção, como era de se esperar, ficou por conta da borracha, que é comercializada mediante a conversão do produto em GEB (granulado escuro brasileiro), ou “pranchão”, no dizer dos extrativistas.

Parece não haver futuro econômico para a borracha originária dos seringais nativos do Acre e da Amazônia. Mesmo com todo o suporte fornecido pela política pública – eis que a extração de látex foi beneficiada por generoso subsídio fiscal durante mais de 10 anos –, os seringais de cultivo em são Paulo dominam o mercado nacional de pneus desde 1993.

Por sua vez, a produção de açaí – seja a procedente de Feijó (a mais reconhecida pelos acreanos) ou de municípios do vale do rio Acre – apresentou crescimento anual ininterrupto nas duas décadas em que a política vigorou, pelo que se pode concluir que recebeu impacto deveras positivo.

Comportamento semelhante foi demonstrado pela castanha, que obteve ganhos de produção elevados no mesmo intervalo de tempo, bem superiores aos apurados no período pré-política florestal (até o ano 2000).

Contrariando a máxima de que a produção de madeira em tora depende da derrubada de florestas, nos últimos 20 anos a oferta de madeira se mante estável, com leve flutuação para cima, a despeito da redução havida no desmatamento.

Por sinal, os pesquisadores ficaram intrigados com o comportamento da oferta de madeira, que, de maneira inexplicável, alcançou a cifra recorde de 1.064.195 m3 em 2011, mas decresceu a partir de então, estabilizando-se num patamar de produção bem inferior, na casa dos 300.000 m3.

Todos esses auspiciosos indicadores não deixam dúvida quanto à existência de demanda social, econômica e ambiental para o estabelecimento de uma nova política florestal no estado.

Diante da celebração do Acordo de Paris e do impulso conferido pela ONU ao mercado de carbono, a nova política deverá priorizar a oferta de serviços ambientais.

No serviço prestado pela biodiversidade florestal, ao manter o estoque de carbono e contribuir para o abastecimento de água, pode estar a superação do nocivo ciclo econômico da pecuária extensiva.

Mas o tempo urge, uma política florestal de segunda geração precisa ser discutida no Acre, hoje.

 

*Professor Associado da Universidade Federal do Acre, engenheiro florestal (UFRuRJ), mestre em Política Florestal (UFPR), e doutor em Desenvolvimento Sustentável (UnB).